Olá, Hoje compartilho com você, caro leitor, mais esta experiência vivida. Semana passada, mais uma vez, fiz um dos poucos programas, ou sei lá como chamar essa atividade necessária, porém extremamente tediosa, que dou cabo à força, porque sou obrigada a fazê-lo, com certa freqüência, mais até do que gostaria, por força da cultura vigente que exige de nós mulheres algumas coisas e se você é do tipo discreta, como eu, entende tacitamente que é melhor fazer e pronto. Pois sim. Fui ao salão.
Na correria do dia-a-dia, isso se torna quase um esforço e também pelo fato de ir pelo lavatório quase uma fortuna. Mas, mais ainda pela laboriosa ação de ouvir os assuntos que escapam, ou melhor, que fluem das bocas das outras mulheres, que nesse ambiente, parece que conseguem se superar metonimicamente. A parte toma conta do todo e tome blá blá blá.
O assunto é comprido tal qual os apliques de mega hair, usados como arma poderosa para matar as outras de inveja em qualquer universo onde transitem suas possuidoras, mas a profundidade do falatório se equipara ao potinho fashion que a manicure usa para amolecer as cutículas das freguesas. Infelizmente, em muitas, não é só a cutícula que amolece. Os miolos parecem afetados e a vida alheia, delineada, pintada, esticada e picotada, é exposta em um burburinho que se confunde com o barulho turbinado do secador.
É o templo da beleza. Das que tem; das que querem; das que acham que tem – esse, o pior tipo. Em dia de feriado, que pena. Nenhum homem apareceu. Deviam estar em suas atividades masculinas e por lá se mantiveram. Cá, só a ala feminina. E parece que todas resolveram sair de casa rumo àquele salão, que eu inventei de ir pela primeira vez e justamente naquele dia... Elas estavam por toda a parte. Conseguir uma cadeira vazia era um feito. E é porque era por hora marcada.
Mas, ufa! Finalmente, consegui uma vaguinha. Começamos o processo de arrumação. Percebi que a cabeleireira queria conversar, mas eu queria ficar quieta. Pensei em começar a ler meu texto de Sociologia, mas vi que não seria fácil. Parei meus pensamentos e olhei em volta. Como mulher de salão conversa. A começar pela moça que me puxa o cabelo, com sua fala em altíssimos decibéis. Atende o celular e sua voz se soma ao ruído da máquina assassina, que volta e meia queima minhas frágeis orelhinhas. São as vozes do ambiente e a de Milton Nascimento, que de dentro de umas caixinhas de som dá o seu recado pra ninguém. Isso me faz pensar no sentido de algumas atitudes: pra que mais um barulho se ninguém tá interessado? Se bem que, no meu caso, que sou apaixonada por música, confesso que não acho de todo ruim. A coisa fica quase como um ruído musical embalando a louca sinfonia da vaidade.
Meu Deus! Se os homens entrassem num salão onde suas amadas se arrumam, assim, de repente, com certeza, muitos relacionamentos estariam arruinados. É uma cena dantesca ver uma mulher com um cabelo da cor de gemada, espichado e duro, com um troço parecido com papel alumínio em cima da testa. Realmente, aquele era um ambiente estranho, repleto de gente esquisita.
Ainda no meu tour visual, vi, pelo espelho, uma mulher sentada, tão desconsolada, envolta numa capa amarelo-esverdeada cheia de umas borboletinhas coloridas. Usava umas piranhas azuis e vermelhas e uns artefatos metálicos bem parecidos com garras de monstros de filmes futuristas, prendendo seus cabelos por cima do tal papel alumínio. O corpo esquálido, levemente encurvado para frente, olhava para o nada. Juro que parecia inquilina de manicômio de novela mexicana.
Reparei que, no recinto, a única que tem algo para ler, que não seja revistas de moda, sou eu. Comecei a sentir uma ideia querendo se formar lá na esquina do meu juízo que, aqui, a anormal da história, outra vez, sou eu. Quanto mais eu olhava, mais tinha certeza: como nós mulheres somos esquisitas, ou melhor, acho que os seres humanos em geral.
Mas, é que, no nosso caso, lutamos tanto pela liberdade de algumas coisas e quando finalmente parece que pisamos na borda da piscina de algumas facilidades pensamos que é o mar de rosas e perdemos o foco. Não tenho problema com a busca de uma melhor aparência, só me entristece o fato de que algumas mulheres não conservaram mais nada na cabeça, além dos bobs cor de rosa choque. Na sociedade, o papel delas não vai muito além do alumínio. Seja aquele usado na cozinha, seja o do salão.
Como se não bastasse, de repente uma delas entra na minha vida. Comenta para a outra, meio que perguntando, por que sou calada. Realmente estou destoando do ambiente. É que não sou muito dada aos assuntos abordados por elas. Cabelos, moda; moda, cabelos, dietas. Ah! E já ia me esquecendo. Cabelos, moda, dietas e... Unhas. Para os que pensaram que era "homem", bem que poderia ser; mas, até eu sair, esse item ainda não havia entrado na cíclica lista.
Enfim, não sou especialista nestas coisas. Cabelo eu tenho, graças a Deus, desde pequena. Nunca fui careca como minha professora de geografia da 6ª série. Moda... É a que meu dinheiro (não) dá. Aliás, no meu caso de portadora de uma compleição física opulenta, a situação é mais restritiva. Diante do exposto, de cara, já excluo o terceiro assunto. Mas quer saber? Nada disso me incomoda. Sou gente. Moda deixa as pessoas como objetos em série, meio coisificadas. Com relação à lista de assuntos discorridos no salão, só faltou mencionar o último, que, sou obrigada a revelar, sempre roia quando estressada.
Jesus Cristo!! Mas, eu até daria a minha unha roída para ver, fora do ambiente do salão, a moça fantasmagórica que de vez em quando passeia atrás de mim e que eu vejo pelo espelho. Não consigo descrever a cena. Que imagem tétrica. Agarrada com uma revista de moda, que mantém fechada, possui grandes unhas pretas, que lhe completam o visual. A capa creme cintilante, do pescoço ao tornozelo, dá a sensação daquilo que as pessoas do interior chamam de visagem do inferno. Algo do tipo mostrado apenas naqueles desenhos japoneses, do tipo Gyodai e os alienígenas de Gôzma liderados pelo malévolo Senhor Bazoo. Foi só do que me lembrei, dos meus tempos de "Esquadrão relâmpago Changeman". Com essa revelei minha idade.
Mas, voltando. A avó da moça que me reportou aos meus tempos de pré-adolescente quando assistia e tinha medo daquelas figuras monstruosas na TV, sentada fazia as unhas ao meu lado e me observava escrever. Com certeza, pela cara dela devia estar me achando estranha. Assim é a vida.
Nesse ínterim, a cabeleireira veio e passou um pincel de parede na cabeça da outra, pintando mais uma vez o papel alumínio. A que cuidava das minhas madeixas anunciou que iria alimentar-se, mas prometeu que voltaria em alguns minutos para dar o acabamento. Eu me acabei de rir. Achei engraçado que as expressões de trabalho do universo masculino foram assimiladas por elas e além de pintar, retocar, agora tinha um tal de fazer o acabamento.
O que é certo é que quase acabei minhas economias em uma só manhã, mas saí de lá pronta pro ataque. Ninguém precisa saber o que meus olhos viram ali. Da porta pra fora, só o glamour dos cabelos balançando ao vento escondendo sua origem cacheada.
Por Elizabeth Rose