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sábado, 4 de fevereiro de 2012

ASPIRAÇÕES DE UMA NARINA... – LEMBRANÇAS DE SOFRER

Na minha vida de vocalista, já passei por muitas coisas boas e não tão boas assim. Estou pensando em começar a compilar algumas reminiscências e, a exemplo de Adriane Galisteu e Paulo Coelho, compartilhar com quem tenha tempo a perder algo tipo: O caminho das lagartixas ou O Diário de um Magote (retratos de um magote de músico sofredor). E, de maneira metafórica, narrar algumas agruras que vivi quando estive perto de estranhas estrelas na estreita estrada dos extremos: ascensão e decadência. Ou não.
Isso, que vou compartilhar agora, foi há alguns anos, no Reino encantado de Latan. E hoje habita apenas o subconsciente. É certo que na hora a gente sente e extravasa como pode, mas... Nossa! Isso pareceu até letra de pagode! Entretanto, tudo aconteceu como está escrito. Aviso que aquilo que leitor compreender e que o remeta a alguma pessoa conhecida, terá sido mera coincidência. Tenham paciência, pois isto é virtude. Perseverem. Vão até o fim.
Foi assim...
Depois de uma semana de intensa labuta, eu realmente fiquei frágil demais...
Mas comecemos do princípio. No princípio era a deusa e a verba estava com ela. E havia travas sob a face abismada. E disse a deusa: haja ensaio! E houve ensaio. E foi a quinta à noite o primeiro dia...
Mas, tinha uma homônima no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma homônima. Era, assim, o princípio das dores. Ao chegar ao pretenso estúdio de ensaio, qual não foi o espanto quando descobrimos que a tarde inteira consagrada à deusa fora em vão. Não haveria o ensaio da estrela em ascensão... aquela a quem Dorinha, a minha manicura, batizou singelamente seu sobrenome de Eulália. É que o nome árabe soava estranho aos seus ouvidos semi letrados e brasileiríssimos, então ela, que sempre fora dada a novelas mexicanas, fez a junção um tanto quanto popular.
Essa pequena digressão é apenas para sublimar a raiva que a minha homônima desmemoriada me fez sentir ao esquecer de avisar-nos que não haveria o tal ensaio. Mas prossigamos. E foi a sexta à noite o segundo dia...
No pretenso estúdio de ensaio, tivemos que agüentar a dona que, pelo visto, tinha um espírito de paparazzi uma vez que não parava de tirar fotos e, pior! Queria a todo custo nos pegar desprevenidas, pois, segundo ela mesma, melhor era o mais natural possível. Eu tentei avisar que odeio tirar fotos, mas ela era obstinada e persistiu no seu intento. Eu como sou uma pessoa meiga, gentil, educada e legal... E haja careta.
No ensaio daquela noite, de cara, descobrimos que iríamos fazer umas... Como explicarei...!?!?! fazer como se fosse mímica... isso! Não chegava a ser uma dublagem, pois a ordem era pra cantar por cima do som que o músico, com cabelo de Papai Noel fora de época, soltava do computador. Para nós, mortais tudo estava muito esquisito, mas tinha lá um cara a Spielberg que jurava de pé junto e de pé separado que aquilo era a última moda no país de Bush. Eu fiquei ressabiada, confesso. Porém, como até meu inglês é ali de Parnamirim...
E foi o sábado à noite o terceiro dia... Mas tivemos de ir balançar no A, no B e no C e não pudemos ir ao Olimpo; aliás, ainda não conseguimos saber o que é mais incongruente: se noite em que se adocica ou dia–Beth. Mas isso é outra estória que depois eu conto.
E foi o domingo à noite o quarto dia... E o ensaio ia de tudo quanto é jeito. Até alta madrugada. O pianista importado comia de três em três horas. Pizza era o prato. A portuguesa, sem cebolas. Eu adoro cebolas na minha pizza preferida, mas meu sobrenome não é marca de máquina de datilografia... Comi assim mesmo. Pobre é uma raça que se adapta a tudo. Lamarck e Darwin ficariam impressionados.
E foi a segunda à noite o quinto dia... A trindade mista resolveu que o ensaio seria no próprio palácio – o dos esportes. E foi. A ordem ariana era para que todos viessem com suas roupas como se fosse na hora do show porque iria haver uma filmagem e sairíamos num telão. Era para ver as falhas. Até aí tudo bem, mas na hora h o que falhou mesmo foi a voz. No vigésimo compasso, o agudo deu um passo – em falso e tropeçou. A fé não era fraca, mas a nota foi e a isso a força do amor não deu jeito. A deusa riu. O maestro nem olhou. Nós, as Calistas, ficamos passadas. Não Eram os deuses imortais – como já dizia o filme.
A deusa contente entrou num embate com o pedestal. Não é um trocadilho, não! O que fazer com o maldito pedestal que sem o microfone que estava em suas mãos não tinha serventia, mas que atrapalhava a performance no vestido rosa? – a propósito, que tanto que foi esse que eu utilizei aí nesse período...?!? É que só de lembrar, meus neurônios se contorcem. Mas tudo bem, vamos lá! Continuemos...
Troca de roupa aqui, troca de roupa ali (e que roupas!) e a hora ia coisando e todo mundo já estava ficando coisado, mas a cantora nem se importava. Roda pra cá, roda pra lá, risos e roupas e o ensaio que era bom, necas! Como os deuses, provavelmente, não têm fome, o pai vaticinou: nem só de pizza viverá o músico. E, naquela noite, o verbo não se fez carne, ou melhor, a verba não se fez pizza. Então, quem quis, pagou do próprio bolso um sanduíche ou qualquer aplacador de fome.
Muuuiiiiito depois da meia-noite, as músicas começaram a soar. E aí foi nessa hora que descobrimos um item que faltou na música de trabalho: mulheres gostam de silêncio! Principalmente àquela hora da madrugada. A cantora ainda tentou um one last cry, mas se a deusa tinha o amor, o guarda tinha o poder. Fez-se silêncio. E eu me maquiei a toa. Nem filmagem, nem telão, nem pizza, nem ensaio. O tempo que ela perdeu com o pedestal teria sido suficiente para ensaiar duas vezes... antes do infeliz do guarda, ou será que eu deveria dizer... santo guarda...!?!
Enfim, escapamos. Voltamos para casa com fome, cansadas, cheias de dúvidas de última hora, mas maquiadas. Pense! Vou passar pelo menos uma semana sem querer ouvir conselhos do tipo "não fique triste eu sei que o plano não era assim" ou "tudo serve como experiência". Foi desse último jeito que tentamos nos auto-enganar. O problema é que somos muito espertas...
Respeitável público, e foi a terça à noite o sexto dia...
E a frente do palácio estava cheia... de pipoqueiros. Tinha para todos: as de microondas, em saquinhos, crocantes e macias. A noite estava harmônica. Pobres e ricos unidos por um bem comum: prestigiar a mais nova estrela natalense. Percebi que os pobrinhos são bem mais alegres e tão boquiabertos estavam com o aparato do espetáculo que nem notaram a falta de graxa no elevador que emperrou um pouco na descida quase deixando a deusa atrepada lá no alto... Ela, entretanto, não perdeu a pose e, tirando os leves pulinhos causados na descida – certamente, pela ferrugem da parafernália – estava muito segura de si. Para não correr o risco de repetir a mesma falha do ensaio, tratou de mudar o agudo daquela música para uma nota mais companheira. A voz era a mesma, mas os vestidos... Foram seis ao todo.
E foi a quarta à noite o sétimo dia... grrrrr!!!
Novamente a minha homônima entrou em ação. Aposto que já estavam sentindo a falta dela até aqui, não? Pois bem: me fez convidar Deus e o mundo confiando em uns convites a que tínhamos direito e na hora do vamo vê, divinha!?! Não conseguia se lembrar onde os tinha deixado. Resultado: passei por uma vergonha de graça porque minha homônima nunca sabe de nada e eu agora sei que não posso confiar em pessoas ligeirinhas demais. Carroça barulhenta que se locomove a mil sinaliza que pouca coisa carrega...
O resto da noite talvez não valha nem a pena relatar. Mas... tá! Lá vai. Para completar a minha noite de estréia como vocalista virtual, deixaram um conterrâneo de Fernandinho Beira-Mar travestido de street dancer encarregado de apresentar a banda e o famigerado, no exato momento de nos apresentar ao público de pobrinhos ululantes e alegres e de riquinhos contidos, pulou essa parte. Apresentou a todos, menos as Calistas. Aí foi que eu fiquei virtual.
Não bastasse quase tudo ali sair do pró-tools, o patrício de Rosinha Garotinho vendo a minha matéria creu na metafísica do corpo e pensou: ser ou não ser. Não foi. Não fomos apresentadas. Era filosofia demais para minha cabeça e a única conclusão a que cheguei foi que houve uma sobrecarga na CPU do moçoilo. Pensar e dançar podem até dar certo na rima, mas não na cabeça de um carioca cujo sufixo do adjetivo pátrio é bem adequado.
Mas, entre sussurros, cadeiras e xotes eletrônicos eu me mantive firme e forte. Depois que descobri que tanto fazia estar ali como não, tirei até meus sapatos. Meu calo gritava mais do que a cantora e como, na presença de uma deusa, ninguém normalmente repara em pé de mortal... Foi a hora em que mais dancei. Qualquer coisa, pensei, digo que além de virtual sou excêntrica, ou que fiz uma promessa, no calo(r) do momento, pra dar sorte. Mas eu estava certa. Ninguém nem...
Bem vou ficando por estas linhas. Teria mais coisas pra dizer, mas já estou ficando meio coisada...
Agora atenção para a agenda. A ninfa já esteve no palácio – o dos esportes, e em breve estará na cidade dos três O. E aqui em primeira mão, eis o próximo passo: rumo à carreira internacional, a cantora, em Gana. Em agradecimento a Bill Gates e à Microsoft.
Pois bem... Como eu dizia bem no comecinho, depois de uma semana de intensa labuta, eu realmente fiquei frágil demais... Mas ainda não vi que era boa a luz de estrelas virtuais, porque nem recebi o faz-me rir, o tutu, o amansa leão, o troco, as onças, o cascalho, o perseguido, o dinda, ou como se chamar aquilo que, na língua de Eulália (isso não tem nada a ver com livro de lingüística), se chama cachê.
E eu não tô nem aí pra aquela música que mandaram a gente cantar no final – aliás, a única que mandaram a gente cantar de verdade – que tem um refrão mentiroso e que não tem nada a ver comigo e com ninguém da trindade, principalmente com o deus-Pai. Eles tão pensando que pobre é burro. Eu quero (meu) dinheiro sim! Virtual só os sussurros e arquejos da deusa. A verba tem que ser real senão, o verbo será...
Ressalto aqui que, como verbo se conjuga, depois de muito penar conseguimos também conjugar a verba que esteve mais para verbete. Mas tudo bem. Como diz a canção, vamos nós "vivendo e aprendendo a jogar".
Tchau. Até a próxima.

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